Calor Recorde

Japão enfrenta cinco dias seguidos com temperaturas acima de 40°C, um marco histórico

Street thermometer showing 40 degrees Celsius with a red arrow pointing upward
Street thermometer showing 40 degrees Celsius with a red arrow pointing upward

Tóquio, 25 de julho de 2026 - O termômetro não dá trégua. Pelo quinto dia seguido, o Japão acordou neste sábado sob uma onda de calor que empurra as temperaturas acima dos 40 graus Celsius em diversas cidades do país - uma sequência inédita desde que a Agência Meteorológica do Japão (JMA, na sigla em inglês) passou a registrar esse tipo de dado, em 2010.

Em Kuwana, na Prefeitura de Mie, no centro do país, os termômetros marcavam 40,2°C logo após o meio-dia. Nas prefeituras de Aichi e Gifu, outras seis cidades também ultrapassaram o novo limiar oficial de calor extremo. A marca não é apenas climatológica - ela carrega um nome novo, criado justamente para dar peso ao perigo: kokushobi, expressão japonesa que pode ser traduzida como "dia de calor cruel".

Uma palavra nova para um perigo antigo - e crescente

O termo foi introduzido pela JMA em abril deste ano para designar dias em que a temperatura supera os 40°C. Até então, o grau máximo de alerta era o moshobi - "dia extremamente quente" -, aplicado a dias acima de 35°C. A agência justificou a criação da nova categoria afirmando que ela permitiria "apelar de forma mais eficaz à vigilância da população diante de temperaturas extremamente elevadas".

A nomenclatura japonesa para o calor tem uma lógica própria e reveladora: dias acima de 25°C são chamados de natsubi (dia de verão); acima de 30°C, manatsubi (dia de pleno verão); acima de 35°C, moshobi. Agora, acima de 40°C, vem o kokushobi - o calor cruel. O simples fato de a linguagem precisar evoluir para acompanhar a realidade climática diz muito sobre o que está acontecendo.

Apesar da gravidade do nome, a classificação não aciona automaticamente medidas oficiais em todo o território nacional. É, sobretudo, um instrumento de comunicação de risco - uma aposta na consciência da população.

Hospitais sobrecarregados, mortes confirmadas

Os números por trás da onda de calor são alarmantes. Entre os dias 13 e 19 de julho, quase 11.000 pessoas procuraram atendimento de emergência em todo o Japão por condições relacionadas ao calor. Quatorze delas chegaram sem vida aos hospitais. As autoridades do Ministério do Interior apelaram para que a população trate a situação como uma "catástrofe".

Só em Tóquio, nesta quinta-feira passada, 453 pessoas foram tratadas por problemas relacionados ao calor em um único dia - o maior número já registrado na capital em mais de uma década.

O Japão já convive cronicamente com mortes por calor: são cerca de 1.300 óbitos anuais. O governo estabeleceu como meta reduzir esse número à metade até 2030. A onda atual, porém, coloca essa meta sob pressão antes mesmo do fim do verão.

O contexto climático: verões cada vez mais extremos

O que se vive hoje no Japão não é uma anomalia isolada - é a aceleração de uma tendência documentada. A temperatura média do verão japonês subiu cerca de 1,3°C ao longo do último século. Os verões de 2023 e 2024 já haviam batido recordes históricos, mas o de 2025 os superou: foi 2,4°C acima da média das três décadas anteriores, com 132 estações meteorológicas registrando seus maiores valores médios de sempre. Em 5 de agosto de 2025, a cidade de Isesaki, na província de Gunma, ao norte de Tóquio, registrou 41,8°C - a temperatura mais alta já medida no Japão.

Cientistas são diretos: as mudanças climáticas provocadas pelo ser humano estão aumentando tanto a frequência quanto a intensidade dessas ondas de calor no arquipélago japonês e no restante do planeta.

Uma sociedade que tenta se adaptar

A crise do calor está redesenhando hábitos e rotinas no Japão. No esporte, o célebre torneio escolar de beisebol Koshien - disputado no sufocante agosto japonês durante décadas - precisou ser reformatado desde 2024, com jogos divididos entre manhã e noite para reduzir o risco de insolação em atletas e torcedores.

No ambiente corporativo, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, anunciou novas recomendações de vestimenta para funcionários: shorts, polos, camisetas e tênis passam a ser bem-vindos nos escritórios em dias de calor extremo. É a mais recente fase do programa "Cool Biz", que há anos tenta desfazer o conservadorismo dos trajes formais japoneses para economizar energia e reduzir o uso do ar-condicionado - uma ironia, considerando que o ar-condicionado, hoje, pode ser questão de sobrevivência.

A produção agrícola também sofre impactos diretos. O calor afeta a qualidade e a colheita do arroz, alimento base da dieta japonesa. Agricultores estão migrando para variedades mais resistentes ao calor e até experimentando culturas como o abacate, até pouco tempo impensáveis em escala no arquipélago.

Um estudo do Instituto Nacional de Estudos Ambientais e da Universidade Waseda, publicado em 2025, projeta que, sem cortes drásticos nas emissões de gases de efeito estufa, a prática de esportes ao ar livre em ambiente escolar se tornará inviável no Japão já na década de 2060.

O alerta das autoridades

Diante do cenário, a JMA mantém alertas de insolação emitidos para 37 das 47 prefeituras do país. A orientação das autoridades é clara e repetida: use o ar-condicionado sem hesitar, hidrate-se constantemente com água e sal, evite atividades prolongadas ao ar livre e ligue para parentes idosos para lembrá-los de beber água e ligar o ventilador.

O calor cruel tem rosto, nome e registro histórico. O que ainda não tem é um fim à vista para este verão.

Fontes: Japan Times, NHK World, AFP, The Guardian